O Lugar da Vida

O Lugar da Vida

a comunidade e a comunidade tradicional

a comunidade e a comunidade tradicional

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Algumas palavras querem dizer uma coisa só. Ou pelo menos sonham com isto. Outras, ao contrário, podem significar muitas coisas. Podem traduzir seres ou idéias ora próximas, ora distantes. Podem significar algo e o seu contrário. Podem estender o seu significado a tantos cenários que correm o risco de dizerem tudo e coisa nenhuma.

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Uma dessas palavras é comunidade. Aqui ela é lembrada para traduzir algo socialmente muito concreto, até mesmo jurídico. Exemplo: comunidades ribeirinhas do Rio São Francisco. Mais adiante a mesma a palavra serve a algo a meio caminho, entre o existente geográfico social concreto, e alguma coisa em momento criada por um círculo de pessoas, de uma maneira intencional. Exemplo: comunidade eclesial de base, comunidade negra. Até pouco tempo esta palavra estava situada entre as ciências, inclusive a biologia, a filosofia, e a vida cotidiana muito concreta e palpável. Hoje ela se estende a um mundo entre o eletrônico, o abstrato, o ideológico e o francamente espiritual: comunidade virtual, comunidade de face book, comunidade de destino, comunidade celestial.

O lugar da vida é um livro sobre a comunidade e, de maneira mais centrada, sobre o que aqui e ali desde o passado nos acostumamos a chamar de comunidade tradicional. Devemos lembrar de saída que embora a palavra comunidade seja aceita de maneira quase universal, a multiplicidade de sentidos e significados dados a esta palavra ao mesmo tempo tão corriqueira e tão misteriosa, multiplica teorias, idéias e debates sobre o que na verdade ela deve significar. Não havia um consenso no passado, como veremos logo a seguir. Não existe ainda hoje, e de maneira afortunada podemos acreditar que jamais irá existir.

Em uma de suas mais belas passagens, Hannah Arendt lembra que o singular, o individual é a exceção entre nós, os seres humanos. Isto porque habitamos o planeta Terra coletivamente e somos quem somos, ou o que somos, porque somos essencialmente plurais, sociais. Seres de/da comunidade. Pois entre a realidade da manhã de cada dia e o sonho do sono da noite, habitamos - queiramos ou não – uma, algumas ou uma diversidade de comunidades. É provável que você que nos leia agora se reconheça integrante de pelo menos sete comunidades virtuais, fora todas as outras. Elas esperam apenas um toque de seus dedos para se tornarem presentes diante de seu rosto refletido na tela de um monitor.

Este livro trata, no entanto, de outras comunidades. Após percorrer na primeira parte algo de um antigo e ainda atual debate a respeito do que afinal possa ser (ou não ser) a/uma comunidade, já em uma segunda parte estaremos viajando juntos – a começar por um percurso ao lado de João Guimarães Rosa – por comunidades que além ou ao invés da sempre controvertida palavra tradicional, recebem nomes como: arcaica, camponesa, rústica, patrimonial, sertaneja, vazanteira, veredeira, quilombola, e alguns outros, como os modernos: sustentável, irrigante, extrativista.

Embora algumas páginas acolham trechos de alguns dentre os estudos mais profundos e notáveis sobre o tema, entre os de ontem e os de agora, este livro em nada pretende participar do debate mais altamente científico e acadêmico sobre o tema. Alguns livros e outros estudos mais completos e complexos a respeito são indicados na bibliografia para quem queira deseje “ir mais a fundo”.

O lugar da vida foi escrito para pessoas a quem este assunto e seus caminhos e dilemas possa de fato interessar. Porque em boa parte serão pessoas que existem de algum modo não apenas no interior de alguma/s comunidade/s de vida, mas também porque, devido ao seu trabalho profissional ou à sua vocação pessoal de presença e de participação na vida social, estão ora falando, ora escrevendo, ora agindo de outras formas em função do que acontece em algum lugar comunitário, de preferência... tradicional.

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