Vinho Amargo

Vinho Amargo

Resistência, tradição e modernidade entre sitiantes produtores de uva e vinho na região de Caldas, no sul de Minas Gerais  

Capa de Livro: Vinho Amargo
Resistência, tradição e modernidade entre sitiantes produtores de uva e vinho na região de Caldas, no sul de Minas Gerais

 

Trecho:

Vinho Amargo prossegue uma pequena série de estudos sobre o camponês tradicional no Brasil. Depois dos estudos feitos na região do Alto Paraíba, em São Paulo e, especialmente, no município de São Luís do Paraitinga, subi a Serra da Mantiqueira e dediquei aos pequenos sitiantes produtores de uva e, alguns deles, também de vinho, um tempo de pesquisa de campo de cerca de 120 dias, entrecortados com as aulas e outras atividades da UNICAMP.

Anos mais tarde retornei em 1993/4 para apenas uma revisita de dados e reflexões, por ocasião de minhas atividades no Homem, Saber e Natureza.

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A razão da escolha da região de Caldas, em Minas Gerais, está diretamente ligada à minha proposta original de pesquisa, apenas em parte realizada no presente relatório. Eu desejava investigar não tanto os fatores sociais e as respostas de intenção e prática de camponeses frente aos convites e às imposições do capital à modernização tecnológica do processo de trabalho e à empresariação da pequena unidade familiar, mas justo o seu reverso. Queria saber os motivos pelos quais, em certos casos, uma ampla categoria de produtores rurais camponeses resiste a quase todos os tipos de inovação, quando os seus custos objetivamente não parecem tão altos e as suas vantagens parecem ser tão visíveis.

Escolhi uma região que tinha como uma de suas características principais o haver sido uma promissora área de produção de um tipo de agricultura hoje em franca decadência. Mas uma região onde, se isto aconteceu com o seu principal produto agrícola de mercado por vários anos, houve e segue havendo uma transferência de capital e trabalho para outros produtos da agricultura e da pecuária. Isto fez coexistirem camponeses ainda dedicados exclusiva ou prioritariamente à lavoura decadente, camponeses e outros proprietários rurais, produtores polivalentes da lavoura em crise e também de outras; sitiantes e pequenos fazendeiros definitivamente migrados de alternativa em crise para outras, aparentemente mais promissoras.

Na região de Caldas é exatamente isto o que acontece. Eis uma região que foi durante pelo menos 40 anos a maior produtora de uvas de mesa e de vinho em todo o estado de Minas Gerais. Eis um município onde hoje se assiste aos possíveis anos finais de tal tipo de produção que em anos anteriores, dominou praticamente toda a agricultura dos vales e das montanhas à volta do Pico da Pedra Branca. Que chegou a mudar o nome da cidade de Caldas para Parreira e agora congrega apenas os últimos sitiantes que, sem haverem modernizado a sua prática de produção e de comercialização, resistiram a “cortar a uva”, como tantos outros, e se mantém como viti e/ou vinicultores.

São eles os sujeitos através de quem procuro descrever alguns aspectos mais intrigantes das relações sociais, econômicas e ideológicas entre tradição e modernização na agricultura. Descrever apenas, porque transferi para outras pesquisas com que retorno uma vez mais ao Alto Paraíba algumas questões que de início foram parte de minhas perguntas no presente projeto, e reservei para ele uma discussão apenas introdutória, baseada em dados estatísticos do IBGE relativos aos anos de 1970, 1975 e 1980, na quantificação de um questionário aplicado junto a sitiantes da uva e do vinho, e a apresentação sucinta de falas entrevistas em que, de um lado e de outro do muro da questão central, agrônomos e camponeses tradicionais produtores de uva e vinho apresentam os seus problemas e justificam as suas opções.

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